quinta-feira, 17 de abril de 2014

verso de olhar.

por Teresa Robalo




Deixo meu desejo no teu olhar
para que ele brilhe e ofusque...
Deixo o verso pulsando nas veias
e o agora que escorreu do passado...

Para além dos teus desejos
Existe uma alma que implora...
Para além dos meus desejos
Existe um abismo que chora..

Mesmo no esquecimento
aflora em minh’alma a morte..
Qual palavra seria verso
em um poetizar de angústias?

São anjos do esquecimento
Que pairam sobre mim...
Que deixam cair de suas asas
o verso livre de letras sem destino...

Mas sigo no caminho de carnes nuas
consumadas ou não, nos sentimentos...
E deixo o ventre em outro momento
Onde a palavra não sangre este olhar...

Ing

domingo, 13 de abril de 2014

melancolia.

orisval.wordpress.com


Cai a noite, e a luz que se apaga
leva com ela as sombras.
Ah... se eu pudesse , se eu conseguisse pegar esta luz!
Iluminaria meu caminhar para passos certos
onde a melancolia de teus olhos
se fossem com as sombras.

Meus passos, me levam onde um dia estive.
Passos de sonhar, de frágil lembrar...
Sopro de desejo que leve, se esvai -
tecendo gemidos e sussurros
na longa noite que se rasga na manhã...

Para além da memória que trai,
que vem da alma em desespero,
arrasto o amor vivido em dor
em correntes de incertezas,
de contornos ausentes e solitários...

Enfim, admiro o dia que insiste em se revelar,
levando o que, sem vontade, me trouxe...
E faz-me escorregar pelos emaranhados
obscuros e úmidos, da lembrança...

Ing

domingo, 23 de março de 2014

caminhos de outono

Internet

É ao cair da tarde que se percebe
ao som de vento na pele
que só eu ouço..
Com a alma lavada pela chuva,
testemunha de lugares e lágrimas,
deixo-me levar pelo talvez de preces..
A umidade que respiro, em voz alta,
faz-me sentir invadida, única e exclusiva
sem o suor da devoção..
Existe sim, a vida que se encerra,
que deixa cair suas partes, se esconde,
que se prepara para sobreviver..
E eu dentro dela me acalanto
no frescor dos devaneios
e das paixões de outono..
No corpo dourado que no chão se deita,
no vermelho ardoroso esvoaçante
que acalma e abraça,
me sento sozinha, e novamente
inspiro...
Em voz alta escrevo
linhas de contar desejo e beijo
de jardim de cabelos ao vento
angústia e temor,
que tanta cor
ilumina e leva para longe..

Ing

segunda-feira, 3 de março de 2014

bailado de sons

Foto de Shinichi Maruyama


Me pego a ouvir sons que nunca senti..
Me sinto tão longe de ti..
Vem e me leva contigo para uma dança que nunca dancei..

Ao querer sonhar e girar, me vi em teus braços sorrindo..
E me deixei levar pela bailado que o tempo esqueceu..
Ah! O viver que minh’alma queria
E que loucura na alma cingia..

Algoz de minha enlevada poesia,
Leva contigo esta lágrima sentida
De meus amores que cantam melodias
Para tantas dores a ti consagradas..

Os sonhos desfizeram-se em gemidos
Nem vento, nem flores ou trinados
Deixarão que o amanhã se acabe
no sussurro dos versos do teu sorriso..

E eu danço, danço sempre
Ao som de estrelas e noites
Que fazem a vida passar..
E só eu as ouço cantar..


Ing

publicado originalmente em Retratos da Alma

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

por que queimas.


Internet 



"Um sentimento sempre queimando, 
temperatura sempre subindo 
e um grau absurdo de uma situação 
abocanhada entre os dentes. 
Esse amor desgraçado 
bagunçou meu coração. 
Acelerou todas as minhas emoções. 
Estipulou todas as sensações 
e nomeou a minha razão pra amar". 



Jota Cê



Sinto o calor escorrer pela pele em um momento onde jamais deveria estar.
Existem tantos suores que escorrem e nos levam ao delírio..
O rasgar da pele que não cessa.  Sensação inconsciente que covardemente me persegue, se hospeda em meu corpo e me atormenta sem proveito.
Busco um refúgio onde o pensamento me abandone, onde a carne esfrie e o peito se acalme.
Esquecida de que já fui, e que estive qual sombra em caminho oposto, me desentendo com meu lado tão alienado.
Uma reviravolta, me faz cair em tormenta e sentir o ar ao meu redor, quente, a me deixar em um sopro de sonho de onde nunca acordo.
É tudo tão absurdamente intenso que os poros vertem paixão e sedução..

E eu grito.
Um grito abafado, engasgado, de dor sem alento.
Uma lágrima sangra a ferida da luta perdida, chora a covardia da paixão sobrevivente.
Como querer um suave torpor, se queima por dentro a marca eterna de ilusões caladas, de palavras leves.

Pulsa enfim em mim, a veia que leva o corpo adiante, que vive e dá vida, que eleva o pensamento e o querer. E o tempo que teima em me paralisar, secar a alma, se soltou de mim. E eu, o deixei ir sem remorsos, apenas esperando que ele retorne para aquecer o corpo e fazer queimar o desejo esquecido..

Ing

Este post é parte integrante do projeto "Caderno de Notas" - segunda edição, sob o tema "a temperatura do corpo" do qual fazem parte as autoras Ana Claudia Marques , Luciana Nepomuceno , Lunna Guedes , Tatiana Kielberman , Thelma RamalhoMariana Gouveia


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

outras madrugadas.


Internet





"Pedacinhos de noite, polvilhados com as luzes do dia.
É a madrugada confusa.
Para alguns, tarde.
Para outros, muito cedo.
Opostos de vida".
Mel Fronkcoviak.


O que são madrugadas senão o quase despertar, o quase amanhecer..
Na noite, não sinto a mão que percorre o corpo, não sinto a pele que arrepia.
Não vejo a luz e a sombra, não vislumbro sequer o clarão do trovão.
Na escuridão desta noite somente pressinto..
Na escuridão desta noite, somente  o gemido..
O lençol frio, o vento que invade a cama sem cerimônia pela porta aberta.
Invade o corpo e a alma.
No peso do sono, que não vem, relevo o que nada me é dado, o que do nada me é tomado.

O que são as madrugadas senão o descansar do pensar, do sentir , do leve torpor da morte que vive em nós..
Na janela aberta o frescor da quase manhã me abraça, o silêncio da ausência me encanta.
Percorro o olhar desperto e atento ao redor, e vejo pontos de vida já cedo, já iluminados pela manhã que se aproxima..
O lençol frio, vai aquecer-se ao sol, a sombra dissipar-se-á rapidamente sem trovões, e a escuridão da noite vai levar com ela o gemido..


Quando a manhã chegar, a mão acostumou-se à pele, o sono passou ao largo..
O silêncio já ensurdece o pensamento, que gira e retoma o caminho da ausência.
E assim muitas manhãs, muitas madrugadas, se perpetuarão em tempo e emoções,que somente o sonho tem a audácia de desvendar...

Que venham...

Ing




Este post é parte integrante do projeto "Caderno de Notas" - Segunda Edição,sob o tema "quero outra manhã depois desta madrugada"... do qual participam as autoras Ana Claudia Marques,  Luciana Nepomuceno,  Lunna GuedesTatiana KielbermannThelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

de onde vem a noite.

Light in the darkness  by Charligal


Um dia só..
uma palavra só..
mais um dia somente
e nada mais a dizer.

São páginas e páginas desenhadas em letras, em simulações de sons que jamais foram ouvidos.
Páginas em branco onde as sombras da noite deixam rastros únicos e atormentados.
Foi assim em um fim de tarde.
Para além da febre da gente, que sem querer vem junto com a paixão, o céu pálido iluminou tua face, e eu não sabia como a sedução de tão luminoso olhar iria me derrubar.
Foram dias de insanidades, de loucuras, de morrer em vida em tanto respirar.
Mãos, dentes, cores, sussurros, e uma vida inteira a recomeçar.
Da calmaria, nada veio me brindar, nem a secura do mar, nem a sede de amar.

E então a tempestade chegou,mansa no início, silenciosa e maliciosa.
Junto com ela em um fim de manhã, levou as nuvens e a terra. Levou a paz e a guerra.
Deixou inundada a mão, a pele e a alma, provocando marcas inchadas,encharcadas que vão secando aos poucos ,levando o pó, as raízes e o desespero.

E o tempo passou...
Em uma noite clara ,de luar escancarado, a luz ofuscou o olhar.
A lágrima molhou o que já secara há tanto tempo.
Entontecida de uma vida inteira, inquieta e perdida, sou o mundo sem norte, um sonho sem sorte.
Talvez no esplendor do desejo, na sílaba do verso que a boca silencia, a ilusão se vai e a noite chega.
E também o fim desta página...
Mas, de onde ela vem e o que me traz?

E já é meia noite...

Ing.



Este post é parte integrante do projeto "Caderno de Notas" - Segunda Edição,sob o tema "é meia noite no fim da página"... do qual participam as autoras Ana Claudia Marques    Luciana Nepomuceno  Lunna Guedes Tatiana Kielbermann Thelma Ramalho e a convidada Mariana Gouveia


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

a menina sem rosa.


Internet


.." Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei"..
Cecília Meireles



Uma pequena trança segura por dedos longos brinca com a memória que teima em ser esquecida.
Abro as janelas para que o vento inunde  a alma trazendo muito mais que o desejo pode compor.
Quero a vida que a lembrança da inocência me deu e, para sempre correr..
Cabelos soltos, amores puros e inundados de poesia.
São sensações, que nada mostram e se consomem no ato de viver.

Lembro da pequenina de vestido rosa – nunca gostei de rosa – bordado e lindo.
Delicada, chorava pelo rosa e pelos babados.
Logo tudo se ajeitava e os laços de fita encantavam os cabelos.
Era tudo tão leve, tão quieto, e pleno de novidades. A timidez que brilhava não escondia uma vida a desabrochar e que era pura curiosidade.
Como era bom correr em algum lugar solitário. Era momento único e muito particular que parecia eternizar o sonho desperto .
Eram letras, pincéis e teclas,palavras, cores e sustenidos.
Piano, ópera, muita música pela casa..

Como as escolhas são inevitáveis, tropecei na idade, na decisão do momento, no arrependimento que fecha o olhar, no riso solto do amar, do primeiro amor.
E o sorriso que desabrochou tão cedo me acompanhou, me acalentou, me fez longe e amigável.
Busco ainda manter a alegria do laço,o choro do rosa,e a solidão preciosa que acalentava minha alma em turbilhão, descobrindo a vida de forma tão intensa.

Aquela menininha ainda me ama e eu a alimento , sempre...

Ing


 Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição,sob o tema "A Menina que um dia eu fui"... do qual participam as autoras Ana Claudia Marques    Luciana Nepomuceno  Lunna Guedes Tatiana Kielbermann 

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

impregnada.

Foto de Alyssa Bascombe

Impregnada de sons me deixo
me deleito e me ancoro
em letras únicas que nem sei..
De onde vem?
É um infinito sem nada
sentido indefinido
sem o toque e a impressão
que é da mão..
Moldar
qual lama e terra
a voz que jorra da alma
e que infesta uma vida..
 Desenho
que se cobre de noites
claras e sem ardor
pálido e indolor..
Verseja uma bobagem
saboreia um pecado
ausenta o nada
e espera o riso
que as linhas apagaram..

Ing

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

ampulheta.

Internet



Veja o que segue
Sinta o que te move
O que balança teu amar..
Corre o tempo morre a dor.
No amar  a vida escorre
no tempo se morre..
Ame o que tudo
na vida aflore.

Adeus
Eterna luz
Descompasso,
Único encontro
Saudade em fino fio..
Luz e desejos vãos.
Solidão  indulgente
Vontade descortinada..
Renovar o tempo
Viver e rever  
Caminhos
 e passos .

Que o tempo nunca se perca
Que a palavra se encaixe
E a vida siga em rimas
De amar e cantar ..

Ing